Quando algum ponto comercial não dá certo com nenhum negócio ou quando determinado empreendimento tem sua existência marcada por muitos problemas costuma-se dizer que ali tem caveira de burro enterrada. Então, convenhamos, seguindo a linha da sabedoria popular, no que diz respeito ao transporte de massa de Salvador há uma dezena de caveiras de burros enterradas.
Desde a década de 70 (do século passado (é bom lembrar que estamos no século 21) que todo planejador urbano de Salvador tem consciência de que a capital baiana, por suas caracterÃsticas geográficas, precisa de um eficiente sistema de transporte de massa porque, por mais que se abram ruas e avenidas, logo logo se esgotaria a capacidade de escoamento do crescente tráfego de veÃculos.
Daà a tentar resolver, porém, há uma distância muito grande. Pelo contrário, o único sistema de transporte de massa da capital, os trens do subúrbio ferroviário, quase foi desativado. Dos prefeitos de Salvador, quem primeiro tomou a iniciativa de projetar um sistema nesta linha foi Mário Kertész (PMDB), que, no seu segundo mandato (de 1985 a 1988), deu inÃcio à implantação do VLT (VeÃculos Leves sobre Trilhos), que ficou mais conhecido como “Bonde moderno”.
Depois de implantados um trecho de trilhos (no Vale do Bonocô) e uma série de passarelas, o projeto morreu, em meio a uma série de acusações, nunca provadas, de desvios de verbas e também em razão da incompetência e do desinteresse do sucessor de Kertész, Fernando José (PMDB), um dos piores prefeitos que Salvador já teve.
Depois, em 1992, veio LÃdice da Matta (então no PSDB), que nunca se interessou, ou não teve apoio e recursos para dar andamento ao projeto. Eleito em 1996, Antonio Imbassahy (então no PLF) entendeu que Salvador precisava de um sistema eficiente de transporte de massa. Porém, em vez de aproveitar o projeto iniciado lá atrás por Mário Kertész, optou por uma solução muito mais cara (dizem, não sei se é verdade, que um quilômetro do metrô custa 30 vezes mais que um quilômetro do VLT) e sofisticada, o metrô.
Depois de muitas consultas e propostas, a Prefeitura deu inÃcio, em 1999, no projeto do Metrosal (Metrô de Salvador), cuja primeira etapa seria de 13 quilômetros, incluindo um trecho elevado sobre o Vale do Bonocô e um túnel entre a Fonte Nova e a Estação da Lapa. Desde o seu inÃcio, porém, a obra esteve envolvida em polêmicas e querelas polÃticas, muito aumentadas depois que Lula foi eleito presidente, em 2002.
Quando João Henrique (PMDB) foi eleito, em 2005, várias denúncias de irregularidades já pairavam sobre a obra. Nos últimos cinco anos da sua administração, os problemas só aumentaram e o metrô, que iria custar pouco mais de R$ 500 milhões, já tem um custo estimado em mais de R$ 1 bilhão, embora sua primeira etapa tenha sido reduzido para apenas 6 quilômetros. Os serviços já foram paralisados várias vezes, pelo Tribunal de Contas da União, sob a acusação de superfaturamento e outras irregularidades.
Agora, 10 anos depois de a obra ser iniciada, a Assembleia Legislativa da Bahia abriu uma CPI para investigar os problemas do metrô, numa iniciativa que me parece muito mais destinada a abrir espaços na mÃdia em temporada de campanha eleitoral do que em sanar problemas. E a primeira etapa do metrô de Salvador, com os seus seis quilômetros de problemas, tem sua inauguração prevista para o final deste ano.
Em razão dos antecedentes, não conheço ninguém que aposte um centavo no cumprimento deste novo prazo (um dos muitos que já foram descumpridos).
É ou não é problema para mais de uma dezena de caveiras de burros?